Investimentos sustentáveis como ferramenta para transformação da sociedade – por Gustavo Loiola

A pandemia evidenciou as múltiplas formas de desigualdade existentes na sociedade, seja em níveis de renda, raça ou demográficos. Grande parte dos mercados emergentes enfrentam de maneira mais intensa os desafios de saúde, dos conflitos políticos e do isolamento do resto do mundo – uma certa desglobalização. Além disso, observamos a exposição das fragilidades das cadeias globais de suprimentos, o que potencializa ainda mais os impactos econômicos nos países.

Essa situação influencia as perspectivas de investimentos, que passam a valorizar cada vez mais a sustentabilidade, a responsabilidade corporativa, a macropolítica e a resiliência das empresas e dos países que, por exemplos, pode ser considerada uma característica que mede a capacidade de resistir a momentos de crise e retomar suas atividades de maneira ágil e eficiente. Por isso, ouvimos tanto falar sobre isso nos dias de hoje. A resiliência acaba então sendo um dos fatores essenciais de confiabilidade para realizar um investimento, afinal de contas garante que a empresa tem uma boa gestão de riscos e baixa volatilidade do negócio.

A BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, fez uma pesquisa que estabeleceu uma correlação entre os fatores de desempenho mais tradicionais, como a resiliência e a sustentabilidade. Concluiu-se que empresas mais sustentáveis são mais resilientes durante as crises. Alem disso, os resultados indicaram que, em uma pandemia com um impacto tão devastador na nossa vida cotidiana, empresas com histórico de boas relações com os stakeholders, uma cultura corporativa estruturada ou com conselhos robustos estão demonstrando desempenho financeiro resiliente.

No entanto, os fatores mais tradicionais não descrevem efetivamente o conjunto de atributos que vem a impactar a resiliência de uma empresa. É nesse sentido que as ações de Environmental, Social & Governance (ESG) constantemente ampliam a sua abrangência e visibilidade, a fim de conectar melhores práticas ambientais, sociais e de governança. São critérios que associam as empresas que possuem em sua missão e operação um propósito de geração de impacto positivo para o planeta, respeitando as normas ambientais, éticas e legais. Esse não é um conceito novo no mercado financeiro, mas vem cada vez mais ganhando visibilidade e crescimento.

Em 2020, a BlackRock anunciou uma mudança completa em sua carteira, colocando em lugar central os investimentos sustentáveis e removendo o apoio a empresas de alto risco ambiental ou social. Segundo estudo do US Trust, mais de 75% dos Millenials tem interesse em investir em fundos ESG. Além disso, o Bank of America já potencializa um mercado de aproximadamente US$ 20 trilhões para investimentos ESG, o equivalente a 80% do valor de mercado das 500 maiores empresas americanas. Aqui no Brasil, a XP Investimentos criou recentemente uma área de Sustainable Wealth, sendo a primeira instituição financeira brasileira a abrir uma frente direcionada para integrar os temas ESG a gestão de patrimônio dos clientes.

Tudo isso demonstra mais uma vez o momento de virada que estamos passando. São cerca de U$ 80 trilhões movimentados no mercado global de fundos, onde cerca de US$ 10 bilhões estão em produtos ESG. E esse número cresce de maneira acelerada – no começo do ano passado, representava apenas US$ 4 bilhões do total. A sustentabilidade está passando a ser a chave para uma retomada econômica e, com essa reinvenção também do sistema financeiro, caminhamos para uma transformação global.

*Gustavo Loiola é Mestre em Governança e Sustentabilidade e supervisor de Sustentabilidade e Relações Internacionais no ISAE Escola de Negócios, responsável por ações alinhadas com a Organização das Nações Unidas (ONU).

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